quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Adolescente senil

Não sou nenhum especialista em coisas da memória, mas o assunto, vira e mexe, é pauta das minhas divagações. Eu substituiria, com gosto, alguns depósitos de lembranças antigas, que são muitas, pela memória de curto prazo. Primeiro, porque aquelas, em grande parte, já não são úteis, mas, principalmente, porque percebo, todos os dias, que não dou conta de saber tudo o que vivi nas vinte e quatro horas anteriores. Desisti da impressão de que a seletividade das escolhas sobre o que lembrar é muito grande, mas, talvez, eu não queira, inconscientemente, ter idéia do que se passou. É possível que nem sejam, mesmo, coisas da memória que me aflijam, mas as questões -- as grandes questões -- que surgem no momento em que se pula da adolescência para a decrepitude, enfim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O peso do tempo

Lembro-me bem de quando fui introduzido no mundo dos mortos. Minha pouca idade justificou o assombramento e os pesadelos que me empurraram, depois, mais de uma vez, para a cama dos meus pais, de madrugada. O vizinho era muito magro e o caixão que o emoldurava tornava mais nítida a impressão de que o que havia, ali, era um boneco dentro de uma caixa. Não era! Era "gente morta", me diziam!

Apesar da sensibilidade afetada, isso não me prejudicou mais do que o anseio recorrente a cada vez que uma eventualidade -- fatalidades foram mais frequentes -- me obrigou a cultuar um "corpo presente".

Hoje, há mortos demais na minha conta. Muitos deles, lembranças queridas com quem sonho de vez em quando. Um pai. Vários irmãos. Vários colegas de trabalho. Muitos com quem tive contato, para mais ou para menos.

Eu não frequento o cemitério no dia dos mortos. Vou fazê-lo, inevitavelmente, quando chegar a minha vez.

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Do meu celular.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Catalepsia (*)

 (*) Escrito em 10/9/2008

O mundo está lá e é sobre aquilo que escrevo diligentemente. Enquanto me escondo nessa dimensão oculta do espaço e do tempo, admito que é bom não pertencer ao outro lado.

Dia desses me peguei formulando hipóteses para o caso de ser obrigado a conviver com as gentes comuns, mas espantei o devaneio com um sopro. Infelizmente, uma idéia ficou matutando e, embora não quisesse dar-lhe ouvidos, descobri-me apavorado. Soltei, então, o ar dos pulmões e submergi.

O dia certo e a hora certa esperavam por mim, aflitos, com uma toalha nas mãos.

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Nota: troque "submergi" por "emergi" e teremos entendimentos diametralmente válidos, um mais complexo que o outro.

Sobre previsibilidades

O que vai aqui, agora, talvez seja o único recado que eu já fiz constar. Não foram recados nenhuma das palavras que antecederam essas: desabafos! As que davam a impressão de ser o que não eram, eu as apaguei.

Existe um nome para a afinidade puramente mental entre duas pessoas, mas não ouso dizer sua definição. Infelizmente, eu estava enganado e a reciprocidade é impossível. Eis o fim que, de tão anunciado, enfim se concretiza: para nomear o que poderia ser, era preciso que a possibilidade fosse caminho de mão dupla. A direção simples da estrada, esta sim eu digo o que é: obsessão. Eu, contudo, para ela não tenho vocação e muito menos gosto.